a mesa de luz

light gazing, ışığa bakmak

Friday, August 18, 2017

kick and run

the tradition lives on.

Pera

foi bem recebido o livro, com reviews em vários jornais importantes americanos e ingleses. retenho este artigo do Hurriyet na sua versão inglesa porque gostei de o ler.

"the last of the grand old establishments that defined Istanbul’s era of jazz and exile."
seria o nosso Palácio no Estoril.

Beyoğlu Pera Palas 1930.

curiosidade: Pera Palas asansör, o primeiro elevador da Turquia.


Thursday, August 17, 2017

ou talvez o

incêndio (des)controlado seja a ideia de 'possibilidade' na sua mais nua perversidade. rima cruzada.
ou talvez existam vários diálogos que caminham em paralelo sem que se adivinhem.
porque não quero que se toquem essas linhas, apenas eu caminho obliquamente, como a chuva do poeta.

assim falou

o chão, o planeta, o solo. enquanto aqui estava revolvendo impressões, ideias de mim, conclusões, senti-a a falar de dentro, uma espécie de terramoto pessoal, só meu e para mim. qual a maior revolução? a de expansão e conquista desenfreada ou a sua quase oposta, a de mergulho em si, de fechar todos os portões e regressar a um plano anterior, como se isso fosse possível. não é. menti-lhe a ela, ferida de morte, moribunda e cambaleante num sentido muito figurado, e ela devolveu-me uma incredibilidade natural. ouviu-me temporariamente mas sabe que não é assim. este o terramoto, o único, as cem carruagens a passar debaixo da minha cama, o desejo e a impossibilidade.

simboloAviso de Sismo no Continente 17-08-2017 07:44
2017-08-17 07:44:59
O Instituto Português do Mar e da Atmosfera informa que no dia 17-08-2017 pelas 07:44 (hora local) foi registado nas estações da Rede Símica do Continente, um sismo de magnitude 4.3 (Richter) e cujo epicentro se localizou a cerca de 4 km a Este-Nordeste de Sobral de Monte Agraço.

Até à  elaboração deste comunicado não foi recebida nenhuma informação confirmando que este sismo tenha sido sentido.

Se a situação o justificar serão emitidos novos comunicados.




A localização do epicentro de um sismo é um processo físico e matemático complexo que depende do conjunto de dados, dos algoritmos e dos modelos de propagação das ondas sísmicas. Agências diferentes podem produzir resultados ligeiramente diferentes. Do mesmo modo, as determinações preliminares são habitualmente corrigidas posteriormente, pela integração de mais informação. Em todos os casos acompanhe sempre as indicações dos serviços de proteção civil. Toda e qualquer utilização do conteúdo deste comunicado deverá sempre fazer referência à fonte.

Localização em mapaVer mais »»

enamoramentos

depois de meses fora de mim ou fora de contexto, li Enamoramentos de Javier Marías de rajada. trezentas e tal páginas em dois dias, e julgo que fiquei viciada, um pouco como aqui há alguns anos me sucedeu com Vila-Matas. mas se Vila-Matas é um elegante 'discursador', Marías é complexo, enredado, sofisticado (ah!). as citações não são listas de erudição, mas todo o livro se baseia nelas, não como citações, mas como pedaços que exemplificam sentimentos humanos universais, exemplificam e condensam, como se aquela frase fosse 'a frase', aquela que melhor faz viver aquele sentimento ou impressão, a mãe de todas as frases e a última, a melhor. como tal, a história roda em torno de meia dúzia de ideias que se encaixam e se largam como um jogo de tabuleiro.

o fio da narração tem vários planos ou motivações que se sobrepõem: a história do tipo policial (e verdade seja dita, a mentira é uma actividade muito interessante e digna de estudo ou análise), o jogo de ideias/citações; e o discorrer sobre as várias formas de amor e de enamoramento, o nome do livro. amor e morte, desde Freud será impossível separar este par de amantes.

e mais irei dizendo um pouco à frente.

à frente:

"Mas às vezes basta que alguém, em exclusivo e com todas as suas forças, se esforce por ser um pouco determinado ou por alcançar uma meta para que acabe por sê-lo ou por alcançá-la, apesar de não ter nascido para isso ou de Deus não o ter chamado por esse caminho, com antigamente se dizia, e onde mais isso salta à vista é nas conquistas e nos confrontos: há quem está em má posição na sua inimizade ou no seu ódio a outrem, quem carece de poder e de meios para o eliminar e ao lado dele se assemelha a uma lebre que tenta atacar um leão, e apesar disso esse alguém sairá vitorioso à força de tenacidade e falta de escrúpulos e estratagemas e fúria e concentração, por virtude de não ter outro objectivo na vida além de prejudicar o seu inimigo, exauri-lo e miná-lo e depois acabar com ele, ai de quem arranja um inimigo com estas características por muito débil e necessitado que pareça ser; se uma pessoa não tem vontade nem tempo para lhe dedicar a mesma paixão e responder com a mesma intensidade acabará por sucumbir diante dele, porque não é possível combater distraído numa guerra, seja ela declarada ou soterrada ou oculta, nem menosprezar o adversário desajeitado, ainda que o julguemos inócuo e sem capacidade para nos prejudicar, nem sequer para nos arranhar: na realidade qualquer um nos pode aniquilar, do mesmo modo que qualquer um nos pode conquistar, e essa é a nossa fragilidade essencial. Se alguém decidir destruir-nos é muito difícil evitar essa destruição, a não ser que abandonemos tudo o resto e nos centremos apenas nessa luta. Mas o primeiro requisito é saber que essa luta existe, e nem sempre o sabemos, as que oferecem maior garantia de êxito são as dissimuladas e as silenciosas e as traiçoeiras, como as guerras não declaradas ou aquelas em que o atacante é invisível ou está disfarçado de aliado ou de neutral" (...)



Tuesday, August 15, 2017

'Regresso a casa'

o amor é que acaba comigo. ou afinal talvez não. o que acaba é o desamor, ou o a-amor.
quanto ao filme, só vendo, n'est-ce pas?

Monday, August 14, 2017

pente

o impensável acontece. embarco sem carregador de portátil, viajo sem carregador de telefone e, pico do picos, acordo sem escova de cabelo o que me obriga a um euro na toiletry dispenser machine (um nome ao nível de combine harvester do poema, 'High Windows' já agora). ou me ando a tornar demasiado sedentária, ou me ando a tornar demasiado confiante ou me ando a tornar demasiado distraída. seja qual for a hipótese, o melhor é corrigir isto depressa.


Saturday, August 12, 2017

ena! 2: Clash de Mohamed Diab, Eshtebak

quando se passa tanto tempo longe da sala escura, qualquer filme que venha parece extraordinário. essa sensação já a tive algumas vezes e estou com receio de ser este o caso. que excelente filme, uma epopeia em espaço fechado, um microcosmo a representar a humanidade.

aqui no guardian.

outro filme claustrofóbico que vi foi, julgo, Lebanon, todo filmado dentro de um tanque. mas julgo que essa ideia tem uma longa história. ainda no outro dia me lembrei do Deserto dos Tártaros, para além de todos os filmes de trincheiras.

esta história não é de guerra, mas de paz. é a história de todos os conflitos através do microcosmo controlado do veículo-prisão que é dentro mas de onde se vê ´fora' de um ponto de vista privilegiado. as mulheres, como habitual, são poucas mas absolutamente excepcionais e concentram nas aparentes frágeis personagens a força de vários cataclismos. já divago.

- -
a história: durante os 3 dias de tomada do poder à Irmandade Islâmica no Egipto, subida ao poder pelo voto, viveram-se tempos difíceis de manifestações, violência, Clashes entre a polícia e os militares e a Irmandade Islâmica, um país dividido ao meio. o filme relata um desses dias dentro de um veículo de detenção. as primeiras pessoas a serem detidas são dois jornalistas. segue-se um grupo de pessoas que se estavam a manifestar a favor do exército. depois um grupo de pessoas da Irmandade Islâmica e finalmente um polícia. perante o perigo, perante o que se passa lá fora (e o carro assume-se como um local privilegiado de onde se assiste mas também se vive este dia extraordinário), uma estranha coisa acontece: o grupo une-se nas suas enormes diferenças e o que era ódio torna-se empatia. que enorme missão para um filme político e de acção, uma missão conseguida e pela qual me apetece agradecer. recomendo vivamente.


ena!

o ena! é por ter finalmente ido ao cinema (e não de vestido florido, malinha, sorriso meloso) mas preto e jeans, as pernas enroladas para cima numa sala pequena com uma dúzia de pessoas, metade delas gente desagarrada e estranha como eu, a outra metade velhas de Lisboa perdidas que entram na 'matiné' sem saber o que se vai passar para depois saírem a um terço do filme ou enxofradas ou com falta de ar.

engraçado que falando recentemente com um marujo me lembrei de como eu era, mas sobretudo de como já não sou. também fui western'ocentric com todos os cool associados mas entretanto eu sim ia falar da divisão de águas, dar o meu palpite, mandar umas piadas, deixar os convivas a rir e a lembrar os outros tempos em que tudo era diferente. deve ter sido frente à mesquita nova, perto das sanguessugas e não longe das lojas de tecidos, que me pulverizei em outras coisas e, tal como em Pamuk, começou a minha yeni hayat - já sem centro, a história desfeita, os princípios perdidos em movimento como a areia do Guincho. ultimamente instalou-se sobre esta devassa outra ainda sobre a qual só falo - coloco na mesa luminosa - para a conhecer melhor porque me é tão estranha. e assim numa frase longa tentei imitar a geração de pessoas nas pregas do tecido das frases de Gogol e consegui. mas este conto tem apenas um acesso autorizado, o meu e aposto que durante pouco tempo pois as marés de memória transportam-me os areais para outras bandas muito amiúde.


bad omen

de manhã e uma mancha castanha enorme no chão da cozinha. a estranheza é tanta que à maneira apocalítica tenho de googlar barata para estar certa de que aquele Kafka de pernas para o ar pertence à raça. vai de vassoura com pernas decepadas e outras atrocidades, varrer para fora. meia hora depois volto para rever o cadáver e não é que a coisa se tinha endireitado e as antenas se moviam? de onde veio este alien? (melhor palpite: do minipreço local, com a fruta e a salada). dali não passou, agora esmigalhado em quase bolonhesa. mas caramba.  estou decidida a picar os bad omens com a mesma energia. and bed omens as well.

hoje em estilo selvagem desde a manhã, passaremos da tasca portuguesa à água tónica com hortelã.


há tipos que dizem que as minhas fotos não prestam porque as tiro com o telefone. não vou responder, mas há bons remédios e muitas fotos excelentes elsewhere.  e deixarem-me na paz e sossego das férias que não vou ter?




Friday, August 11, 2017

'In England and France he was the square peg in the round hole, but here the holes were any sort of shape, and no sort of peg was quite amiss.'


a trabalhar até às tantas com o shuffle play do Massena. a pensar nisto ou naquilo, ou sabendo sem pensar, pelo meio da arrumação. coisas tão díspares como o centro interpretativo das minas da borralha, os formulários de passagem de serviço ou os Serões da Província. ah, estás a ler? lembro-me de ler isto quando era miúda. não estou, na verdade, mas precisei de linhas destas no outro dia quando o mar me engalfinhava. "Os mais sisudos burgueses, que, durante o Inverno, revestidos da gravidade do seu paletó, e confiando os pés à impermeabilidade dos seus sapatos de guta-percha, passavam sérios e ponderosos, cortejando- se com irrepreensível compostura, agora vestidos de linho, de chapéu de palha de forma pastoril e leveza que não era de esperar da sua idade e posição, seguem prazenteiros caminho do campo, contando anedotas de índole pouco edificante, fazendo sentir o sabor do sal, não absolutamente ático, que as tempera; recordando as mais atrevidas coplas da Maria Cachucha, acompanhadas de exibições coreográficas de fazerem estalar de riso a parte feminina do rancho que capitaneiam." o corrector automático passa-se da cabeça. - e de quem julga que sou tão literária ou, pior, tão romântica, por tomar como verdades singelas o que são fabricações pouco sérias só porque gosto de inventar. ou porque tenho de me ocupar com irrealidades uma grande parte do tempo ou o que seria da coisa nua e bruta. esqueçam lá isso, desenganem-se. as palavras são mansas mas os olhos são crus.

Tuesday, August 8, 2017

cozying


em noite de lua cheia e um dia após o eclipse parcial em suite com vista total de mar.

para o m.

que nem costumo dar o endereço deste lugar, mas foi troca por troca e um reconhecimento curioso. as pessoas das palavras são sempre perigosas porque pegam nas nossas e as cozinham de outro modo, com novas combinações e invenções. quem sabe onde vão parar o marujo, as mãos e a gentileza.


gosto de Matosinhos e da rua principal. as casas são sui generis e o ambiente também. o junto ao mar já é outra coisa, com os passeios largos e os apartamentos de enormes varandas. nas ruas interiores passeia quem não se ausenta durante a semana. a recente transformação do mercado atrai alguns turistas, esta gente que se espalha agora por toda a parte como uma erva daninha, dizem uns. ninguém gostava, ninguém recuperava. quando os outros querem, todos querem também. não é novo. gosto de forasteiros.

noutra ocasião e à saída do mesmo porto estavam dois asiáticos que julguei na altura serem filipinos. precisaram de mostrar uma batelada de papéis e autorizações para sair da zona portuária, talvez mais para entrar se calhasse mudar o turno do securitas de serviço. depois de muita conversa de surdos, e de um receio latente que lhes senti, diluíram-se como eu nas ruas de Matosinhos a olhar para as montras e a falar, embora pouco, entre si. naquele momento, o da dissolução, tinham desaparecido, como se costuma dizer, por entre a multidão embora não existisse multidão. esse é o efeito dos navios nos marujos. sobem a escada do portaló e logo adquirem uma identidade única, um lugar de origem, manias e famílias, necessidades, preferências e manias. alcunhas. sair desse lugar ao mesmo tempo desabrigado e fechado implica perdas imprevistas. um dia revejo o Conrad deste ponto de vista, mas não precisaria de ir mais longe: a abertura do Heart of Darkness já diz tudo. é o apelo do mar e o desejo de terra.

e aqui está. estender a mão gentilmente mas baixando a cortina.

Wednesday, August 2, 2017

requebrado

dizia-me ´não andes assim´. e o que queria dizer era que eu tinha um determinado modo de andar, por vezes, em que andava como se estivesse sozinha.

sobre a escrita simples

para ti, sim.

a escrita simples é inequívoca e evita toda a ficção desde os gregos ou talvez antes, antes das letras e dos traços como os vi no dia em que passei por Arnavütkoy e em que havia um casamento a aguardar o barco no cais ornado. mas nenhuma escrita evita a ficção nem sequer as figuras que correm nas pedras ancestrais. as palavras simples e sem dois sentidos riem e olham directamente nos olhos sabendo que ocultam uma cabeça de Medusa por detrás das costas. e a Medusa ri também, sabendo que lá está sem que a vejam, apenas a sintam com um estremeço de pálpebras. tudo é directo ou literal e as palavras alinham-se literalmente numa estrada sem desvios, mas sabemos tão bem que não há estrada e nem sequer restam desvios porque caminhamos sempre por terra batida, descalços e sem norte que não seja a própria memória.

Tuesday, August 1, 2017

treino de pegar no canivete

passar camisas, descascar laranjas, o lado A de um LP riscado que ainda roda no gira-discos. ali não há a opção circular 'repeat'. quando acaba, acaba mesmo e fica um ruído bem conhecido de quem como eu se recorda do final da música.

quem sou eu

14 anos depois do primeiro blog, julgo eu, o bloggingburt entretanto assassinado por mim e pelo blogcity em simultâneo, depois da meiadeleite, esse sim de suicídio súbito.  e porque os 51 são os novos 30, Nel mezzo del cammin di nostra vita mi ritrovai per una selva oscura, ché la diritta via era smarrita. - mas este não é um inferno porque não creio nele, mas sim um outro bosque, como não creio na via diritta porque todas são direitas as que se seguem com cegueira mas com convicção. quem és tu, av, uma intrusa, uma onlooker, a do canto a ver, a do centro que fecha os olhos mas se apercebe, a que sabe sem saber todas as sombras que te passam. a pouco tempo de iniciar novo blog (fora os escondidos), e sem que este se esvaia porque aqui tem estado o centro, uma curiosidade breve sobre o medo e como o medo se espalha no mundo sem fios: "in the future we will photograph everything and look at nothing", diz a New Yorker. [Today everything exists to end in a photograph,” Susan Sontag wrote in her seminal 1977 book “On Photography.”] e contra esta ideia coloco outro seminal Walden, um dos livros da minha vida e ao qual regresso sempre que me pergunto 'quem sou eu'. porque eu sou, sabe-se, a minha própria biblioteca e essa colecção de frases voadoras sou eu. se apontasse um livro só para ler nestes dias de cigarras e de campo, de solo seco e espaço, de ouvir o vento a pentear as ervas, os carros longínquos como os arraiais de verão com a música pimba a ecoar nos vales do gerês, um eco que sabe a bolo e a delícias, esse livro seria Walden.

"One farmer says to me, 'You cannot live on vegetable food solely, for it furnishes nothing to make bones with;' and so he religiously devotes a part of his day to supplying his system with the raw material of bones; walking all the while he talks behind his oxen, which, with vegetable-made bones, jerk him and his lumbering plow along in spite of every obstacle.", Thoreau, quem mais, no Walden.

Sunday, July 30, 2017

asas

quando se arranja o peixe para ser comido, a primeira coisa que se tira são as asas e depois as entranhas. se queres voar, nunca percas as asas, primeiro, mas sobretudo as entranhas.

Saturday, July 29, 2017

calcei os saltos altos

e fui ao mercado. foi uma espécie de celebração.


Monday, July 24, 2017

Tuesday, July 18, 2017

há dias misturados com meses e meses misturados com dias

quem disse que o tempo era linear. o músico. porque para ele, é. mas eu sou de letras e há buracos de coelho por toda a parte.

 
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